ARTIGOS

Vínculo familiar antes de tudo

04 de Junho de 2014
Por Revista Crescer

Nos últimos tempos, em São Paulo, entre amigos e conhecidos, tenho ouvido de casais jovens uma frequente inquietação quanto ao futuro escolar de seus filhos pequenos. Muitos deles, antes mesmo da concepção das crianças, têm visitado escolas de educação infantil e enfrentado filas de espera para uma vaga que podem durar de dois até três anos! Tenho me perguntado a razão de tanta angústia e antecipação. Uma delas, imagino, é a ideia, bastante fantasista e difundida entre os adultos, de que seu futuro filho possa ser modelado a partir da projeção dos próprios desejos e realizações, tal como uma folha em branco a ser preenchida. Para isso, criam uma agenda antecipada de matrícula e registro das crianças em instituições de toda sorte, inclusive escolar, acreditando, dessa forma, que o futuro de sucesso e realizações dos pequeninos estará garantido. Será mesmo?

Deixemos de lado a real falta de vagas nas escolas, que se aproveita dessa crença para antecipar matrículas, e pensemos no que significa registrar um filho, que ainda nem existe, em uma escola que pode não ser a melhor para ele. Talvez aí revela-se uma ideia construída nas últimas décadas de que apenas o outro – seja ele professor, psiquiatra, psicanalista, fonoaudiólogo e demais profissionais de formação técnica e especializada – possa modelar o filho ideal, capaz de sobreviver com sucesso na sociedade competitiva atual. Esta representação, porém, destitui pais e mães de sua potência educativa e é pensada e vivida, com certeza, fora da existência humana afetiva, contraditória e interacional. Ocorre que, ao contrário desse sonho projetivo adulto, bebês nascem com características, desejos e tempos singulares de aprendizagem cuja base afetiva e cultural familiar é definidora do que poderão aprender no futuro. Ou seja, as capacidades cognitivas e de aprendizagens infantis são altamente dependentes das relações de vínculo que seus familiares constroem com elas por meio da linguagem e dos objetos que lhes oferecem para brincar.

Pesquisas recentes em todas as áreas do conhecimento têm demonstrado que as crianças se desenvolvem melhor na escola e na vida quando pais e mães estão envolvidos em sua aprendizagem e disponibilizam seu tempo para elas. Algumas experiências, em diversos países do mundo, têm, por isso, criado instituições nas quais bebês e crianças muito pequenas possam aprender, brincando, e ao lado de um ou mais familiares, conteúdos de origem cultural e científica. Esse é o caso, por exemplo, de alguns “Family Care” canadenses, que são instituições complementares às creches e aos centros de educação infantil. São salas equipadas com toda sorte de material, livros e brinquedos, sob a responsabilidade de um profissional experiente, que criam situações favoráveis para adultos e crianças interagirem e descobrirem o mundo juntos. Minha vizinha, por exemplo, que tem uma filha de 3 anos e um bebê de 4 meses, optou por esse tipo de instituição. São francesas, o marido trabalha ‘full time’ em um programa de MBA e negócios e a mãe passa muito tempo sozinha com as meninas. Para ela, segundo me conta, a ‘Family Care’ permite não só que interaja com as crianças em local rico de objetos culturais contribuindo para que entenda melhor o que acontece com as filhas, como, também, permite-a estabelecer trocas e ajuda mútua em relação às suas dificuldades e desafios educacionais com outras mulheres e homens, pais e mães de outras crianças.

Outro caso de sucesso são os ‘Parenting and Familiy Literacy Centres’ (algo como Centros de Parentalidade e Letramento Familiar). Visando enriquecer a força educativa das famílias, principalmente aquelas com baixo nível de letramento, o governo de Ontario criou mais de 150 centros para atender pais e mães angustiados com o futuro e isolados na criação dos filhos. Funcionando dentro das escolas de educação primária, são gratuitos e oferecem ambiente diversificado nos quais adultos e crianças podem brincar e aprender juntos. Estive num deles acompanhando as atividades. Algumas mães e crianças aprendem a observar e ler uma história. Outros, com a supervisão e ajuda do coordenador, confeccionam dominós e livros de imagens para brincar em casa. Outros, ainda, separam pequenos animaizinhos pela cor, contando e recontando diversas vezes. Compartilham o lanche e divertem-se bastante!

Observo que todos aprendem a relacionar-se e a descobrir-se em relação ao conhecimento a partir de relações parentais e afetivas, aproximando-se do mundo escolar juntos, por meio de seus instrumentos de leitura, escrita, desenho, contagem e música de forma investigativa e lúdica. A escolha da escola pode ficar para mais tarde!

Gisela Wajskop é socióloga, mãe de Felipe, 30, e Marcelo, 16. Ela sempre trabalhou com ensino infantil e tem mestrado sobre a brincadeira na escola pública e doutorado sobre como formar professores para estimular a diversão das crianças, ambos pela USP.

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