ARTIGOS

Experiências inspiradoras de ensino-aprendizagem no Brasil

19 de Março de 2014
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Aos 23 anos, o jornalista e criador do Caindo no Brasil, Caio Dib, deixou seu trabalho para colocar uma ideia em prática: conhecer o Brasil por meio de iniciativas educacionais. O projeto do jornalista começou por uma angustia, pela necessidade que ele sentiu de sair do escritório para estar em contato com as pessoas que promovem ações inspiradoras de ensino-aprendizagem. Desde o início do projeto, no primeiro semestre de 2013, Dib já viajou durante cinco meses pelo país, passou por 58 municípios, visitou 30 territórios educativos e transformou seu propósito em uma empresa de inteligência educacional.

 
Atualmente, o Caindo no Brasil disponibiliza um mapeamento, ainda na fase de desenvolvimento, com mais de 140 iniciativas pouco conhecidas e o jornalista trabalha na redação do livro que será lançado em julho, com a análise de 14 experiências visitadas por ele.  O período é de arrecadação de fundos, por meio de um site de financiamento coletivo, para conseguir lançar a versão em inglês da publicação. O Blog Educação conversou com Dib para conhecer experiências inovadoras no campo educacional e entender seus objetivos e o cenário que ele encontrou viajando por distintas realidades. Confira!
 
Como foi o desenvolvimento da ideia do seu projeto?
Eu sempre trabalhei com Educação e a minha ideia inicial era bem despretensiosa, eu queria conhecer as cidades, o diferente e estar aberto a tudo. No meio do processo de produção da viagem, percebi que eu tinha circulado 74 cidades no atlas para visitar. Diante disso, comecei a pensar que essa seria uma oportunidade ótima para conhecer o chão das escolas, projetos e histórias de pessoas. Foi neste ponto que a viagem começou para valer. Passei a pesquisar, ainda em São Paulo, dicas de instituições de educação infantil do ensino público e privado. Eu queria encontrar soluções criativas para os desafios de ensino-aprendizagem. As escolas tradicionais não me interessavam porque não há segredo nenhum, são a mesma coisa, eu queria encontrar soluções criativas de verdade, conhecer cidades, pessoas e, ao mesmo tempo, o que tivesse de mais positivo na Educação desse lugar.
 
Como foi feito o mapeamento? Você trabalhou com critérios de seleção para escolher quais projetos iria conhecer?
CD – Nas cidades, as pessoas foram me dando dicas e eu comecei a me especializar em práticas educacionais inovadoras que são conhecidas apenas localmente.  O mapa do Caindo no Brasil surgiu a partir das informações que as pessoas foram me dando pelo caminho. Eu tinha pré-critérios e alguns pontos para trabalhar, como, por exemplo, a busca por soluções criativas no processo de ensino-aprendizado. Eu não estava buscando conteúdo, mas, sim, novos métodos e novas maneiras de ser, que desenvolvessem o que eu chamo de Educação Viva, que é uma Educação para a vida.
 
Você poderia explicar melhor o que você entende como Educação Viva?
CD – A Educação Viva aborda questões como o desenvolvimento da empatia e o cotidiano no trabalho. Temas que normalmente não são levantados nas escolas. A maioria das instituições de ensino tem o objetivo de preparar o aluno para o vestibular e não há problema nenhum nisso, se o objetivo é esse e elas o fazem bem. Mas eu busquei por escolas que tinham como foco formar para a vida. Não estamos falando de uma educação técnica e profissional, mas uma capaz de desenvolver habilidades e competências como responsabilidade e autonomia.
 
A ferramenta de mapeamento possui, até o momento, 144 iniciativas. Como você trabalhou com todas essas ações?
CD – Eu vi, pessoalmente, 30 delas durante o período de viagem. Em alguns casos, fiz a visita e não encontrei o que esperava. Até porque uma boa Educação, uma boa escola ou um projeto interessante, não é algo objetivo. O que pode ser inspirador para um, pode não ser para outro. Essas 144 iniciativas, que vão continuar sendo atualizadas, foram reunidas porque eu passei a ser uma referência de boas práticas, as pessoas sabiam que eu estava em busca de métodos inovadores e elas vinham até mim. As informações chegaram por email, redes sociais e conversas. Eu juntei todas as dicas em uma planilha e, no início deste ano, decidi disponibilizá-las em uma ferramenta para que as pessoas tivessem autonomia para buscar o que desejam e pudessem perceber a diversidade de práticas que há no mapa, porque não há uma resposta única para a Educação.

Mesmo com tanta diversidade de projetos, você encontrou pontos em comum nas escolas visitadas?
CD – Na maioria dos casos era uma iniciativa pessoal. O grande projeto da escola, ou da ONG, era uma ação de determinada pessoa, o que é positivo porque é feito com amor e vira uma questão de história de vida. Por outro lado, é algo preocupante porque se a pessoa, por exemplo, sofre um acidente e precisa se afastar, o projeto também é interrompido, porque é iniciativa pessoal. Há um grupo que precisa estar junto à pessoa, mas as coisas são bem concentradas. Esse é um ponto de atenção.
 
Foi possível notar o impacto desses projetos no comportamento dos alunos?
CD – Ao conversar com os alunos envolvidos nos projetos foi possível perceber que eles sabem argumentar, conversar, têm uma visão ampla de mundo, de sociedade. Os pontos de vista deles são muito mais abertos porque eles tiveram oportunidade de desenvolver esse aspecto. Um exemplo, que é um dos meus preferidos, é de uma escola de educação infantil de Brasília, onde eles trabalham com o “não gostei”, pois, na fase adulta, não costumamos falar o que não aprovamos para evitar confrontos. Quando a diretora me contou que eles ensinavam crianças de dois a seis anos a usarem o “não gostei”, eu fiquei desconfiado. Saindo da escola, eu vi uma menina de dois anos jogando areia no rosto de um colega, da mesma idade, e o professor disse, “não faça isso porque ele não gosta” e a menina parou na hora. Com isso, eles ensinavam a criança a lidar com o outro, argumentar, viver em grupo e em sociedade.
 
Como é a interação desses projetos com a realidade local?
CD – A maioria dos projetos que eu visitei estavam relacionados com a realidade local, esse era um dos critérios indiretos que eu usava. O projeto é inspirador e dá certo quando ele considera a realidade local. Um exemplo é a Fundação Casa Grande, localizada em Nova Olinda (CE), uma cidade que fica a 700 km de Fortaleza, possui cinco mil habitantes e é um dos principais cases de trabalho com comunicação e educação patrimonial no Brasil. É um projeto complementar que acontece em uma região rica arqueologicamente e eles desenvolvem um trabalho de resgate histórico. O programa começa na primeira infância e acompanha o desenvolvimento até a fase adulta. Isso impacta diretamente na cidade, no desenvolvimento local, porque eles capacitam profissionalmente também. Eles têm uma associação de familiares para receber as pessoas que vão para Nova Olinda para conhecer a Casa Grande, as famílias criaram pousadas para os turistas, o que é um ponto positivo de desenvolvimento social e envolvimento da comunidade.
 
 Você poderia nos dar outro exemplo?
CD – A Fundação Odebrecht tem um projeto no Baixo Sul baiano, que fica perto do Morro de São Paulo. Eles criaram escolas familiares rurais para capacitar jovens como empreendedores rurais por meio da chamada Pedagogia da Alternância. Os pais desses jovens são agricultores familiares que plantavam de acordo com a demanda, vendiam por qualquer preço e o desenvolvimento social era bastante baixo. Eles trouxeram essa metodologia francesa criada especificamente para o âmbito rural. Os alunos ficam 15 dias na escola, dormindo lá, como um internato mesmo, e 15 dias na comunidade, ajudando a família, porque eles aprendem desde o que está previsto no currículo básico até técnicas agrícolas que estão ligadas à realidade deles. As tecnologias sociais que eles estudam são passadas para a comunidade e, direta e indiretamente, a região se desenvolve a partir disso.

O que falta para que o Brasil possa ter mais ações inovadoras em Educação?
CD – É preciso ter mais encontros, as pessoas precisam estar mais nas ruas, nos eventos, porque é na troca de experiências que as mudanças acontecem. A Educação é uma pauta que está em alta, mas não é tão valorizada. A Educação é importante, mas o dinheiro não chega à ponta e quando surge a necessidade financeira, o projeto encontra vários entraves para seguir. É preciso criar uma cultura de valorização real, a Educação não é só uma missão de vida, é preciso tê-la como um trabalho fundamental, sendo fonte principal de atividade e renda para as pessoas que querem atuar na área. Enquanto for preciso ter uma vida dupla para trabalhar com Educação, o Brasil não vai ter uma mudança significativa.

 
 
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