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Ensinando crianças menores de três anos! A descoberta de um mundo de infinitas possibilidades!

26/5/2010 - Alessandra Arce

Alessandra Arce

Professora do Departamento de Educação/UFSCar 

 

Quando pensamos em crianças pequeninas, a primeira imagem que nos vem à mente é a doçura e espontaneidade que elas nos revelam. O riso fácil e o choro intenso, as bochechas macias e as mãozinhas que tudo querem agarrar, o andar por vezes impreciso, mas decidido em direção do que lhe chama a atenção. A graciosidade da fala, reflexo de sua incipiente habilidade ainda com nossa língua portuguesa. Todas estas características conduzem adultos a imaginarem que muito pouco há que se fazer com essa criança para além da reprodução dos cuidados maternais.

Sua educação, para muito,s deve centrar-se na recreação livre, cercada dos cuidados para com o corpo (alimentação e higiene). Entretanto, este início de nossa vida humana encerra inúmeras possibilidades, constituindo-se em riquíssima fase para o aprendizado e o desenvolvimento biológico, social e cognitivo.

O bebê que chega às mãos da professora da creche aos seis meses está passando por inúmeras alterações, tanto do ponto de vista fisiológico e cognitivo, quanto social e cultural. Para se ter uma pequena idéia, o córtex cerebral e o encéfalo desta criança estão se constituindo e aumentando de tamanho, levando o bebê à percepção do meio ambiente no qual esta inserido. E o estímulo, advindo do exterior proporcionado pelos adultos que cuidam e educam esta criança, é imprescindível. Segundo Vygotski (1996), há, no primeiro ano de vida da criança, uma sociabilidade totalmente específica e peculiar devido a uma situação social de desenvolvimento única, determinada por dois momentos fundamentais: o primeiro consiste na total incapacidade biológica, pois o bebê é incapaz de satisfazer quaisquer das suas necessidades básicas de sobrevivência. São os adultos que cuidam do bebê. Portanto, as primeiras relações sociais travadas pelo bebê são mediadas pelos adultos que cuidam dele, são eles que a introduzem e a apresentam ao mundo no qual ele irá viver. Este movimento é complexo e intenso, pois o adulto torna-se responsável pela formação de hábitos nas crianças, por exemplo, o próprio paladar da criança é formado com a mediação dos adultos por meio dos alimentos a ela oferecidos. A criança está totalmente aberta ao mundo, seus sabores, cheiros, barulhos e é o adulto que desvela este universo confuso para ela. A segunda peculiaridade é que embora o bebê dependa do adulto, este ainda carece dos meios fundamentais de comunicação social em forma de linguagem. A forma como a vida do bebê é organizada, obriga-o a manter uma comunicação máxima com os adultos, porém, esta é uma comunicação sem palavras, muitas vezes silenciosa, uma comunicação de gênero totalmente peculiar. Isto ocorre porque esta criança aprenderá com o adulto a fala e todas as formas de comunicação verbais e não verbais utilizadas no grupo social ao qual pertencerá. Ou seja, o bebê, em um primeiro momento, tem apenas o seu nascimento físico, biológico, enquanto um ser que pertence à espécie animal humana. Os adultos que cuidam deste bebê e o educam, são os parteiros da sua vida social, iniciam o seu processo de inserção no que chamamos de humanidade, síntese de nossos milhões de anos de existência sobre a terra. Assim, “[...] o desenvolvimento do bebê no primeiro ano baseia-se na contradição entre a máxima sociabilidade (devido à situação em que se encontra) e suas mínimas possibilidades de comunicação” (VYGOTSKI, 1996, p.286).

Portanto, este bebê precisa que o adulto esteja com ele, converse, toque-o, apresente-lhe brinquedos, cante para ele, enfim, introduza-o neste nosso mundo repleto de estímulos sensoriais. Este ato é um ato de ensinar que despertará, cada dia mais e mais, os sentidos da criança para o universo que a rodeia, pois é por intermédio de seu aparato sensorial que o bebê percorre os caminhos de exploração do que é ser humano. A educação da criança pequenina começa, então, com este processo de estimulação necessária para o seu desenvolvimento.

A partir do momento em que a criança inicia seu ganho de independência em relação ao adulto com a aprendizagem do andar e o constante desenvolver de seu aparato motor, sua relação com mundo altera-se qualitativamente. Floresce diante dos olhos dos adultos a exploração do mundo por meio dos objetos; por isso, a criança de 1 ano e meio até por volta dos 3 anos é fissurada por pegar, apertar, colocar na boca, sentir, de todas as formas possíveis através de seus sentidos, os objetos. Descortina-se para ela a aventura de conhecer os usos e costumes sociais por meio dos objetos que utilizamos no nosso cotidiano, portanto, estes objetos não são apenas estímulos sensoriais, mas transfiguram-se em pórticos para o acesso e compreensão de nossa organização sócio-cultural. Seu processo de socialização intensifica-se.

Gostaria de esclarecer que entendo por processo de socialização este entrar e compreender, cada dia mais, o mundo em que vivemos e do qual a criança passa a fazer parte desde o momento do seu nascimento. É importante ressaltar que todas as aquisições adquiridas durante o primeiro ano de vida são fundamentais para esta fase posterior da vida do bebê. Dentro do ambiente da creche ou das escolas de educação infantil, em constante contato com os adultos e sob sua direção, a criança amplia sobremaneira sua atuação no mundo. Se no transcurso do primeiro ano o outro (pessoas) ocupava o primeiro plano de suas percepções e os objetos, um segundo plano, agora, gradativamente, esta situação se inverte. Este momento representa grande oportunidade para que se ensine à criança maneiras corretas de se atuar com objetos. Ao fazê-lo, o professor estará contribuindo para que a criança aprenda cada vez mais sobre o lugar e a cultura na qual está inserida.

Entretanto, outro fator alterará significativamente a interação da criança com os adultos que a educam e cuidam dela: a aquisição da linguagem! A criança passa a verbalizar suas ações e expressar suas vontades. Embora este processo de uso da linguagem ainda se encontre em estágio elementar, restringindo-se ao uso de poucas palavras (ocupando o lugar de orações inteiras), sendo estimulada, a criança amplia sua compreensão do uso das palavras feitas pelos adultos. Neste sentido, é fundamental a associação entre palavras e objetos (ou imagens), a exposição da criança a um vocabulário rico e, acima de tudo, que o adulto se dirija à criança sempre com a máxima clareza, o que inclui uma dicção correta. É o momento perfeito para o trabalho contínuo com a literatura infantil e a exploração da mídia por meio de desenhos animados de qualidade.

Vejam, a criança menor de três anos encerra no seu processo de educação a necessidade da presença e atenção constante do adulto a estimulando, conduzindo-a, ensinado-a, desvelando o universo que a rodeia, despertando-a para as possibilidades de exploração e descoberta da vida humana, social, cultural e para vida presente na natureza. É imprescindível dizer que na escola de educação infantil o professor deve trabalhar para além da simples recreação, deve estimular a criança, mas para isso precisa conhecê-la. Este processo de conhecimento envolve apropriar-se da psicologia, da história, da sociologia, da didática e de metodologia de ensino, para que se possa planejar e adequar as atividades a serem desenvolvidas às peculiaridades desta faixa etária.

No livro “Ensinando aos pequenos de zero a três anos”, publicado pela Editora Átomo & Alínea, em 2009, procuramos trabalhar, a partir do exposto aqui, para auxiliar o professor da educação infantil a perceber o quanto o seu trabalho intencional é fundamental para o desenvolvimento das crianças pequeninas.

 

 

Bibliografia

 

ARCE, A. & MARTINS, L. (orgs.) – Ensinando aos pequenos de zero a três anos – Campinas/SP: Editora Átomo & Alínea (WWW.atomoealinea.com.br )

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